terça-feira, 14 de agosto de 2012

Manifestações estudantis no Canadá


“Minha perspectiva é que, a menos que os trabalhadores se unam a nós, a luta perderá força. Já vimos sinais disso”- afirma estudante canadense sobre as mobilizações estudantis

As mobilizações estudantis contra o aumento das taxas de matrícula nas universidades, em Quebec, província do Canadá já duram mais de três meses. O governo tem repremido o movimento se negando em atender a reivindicação dos estudantes de não aumento das taxas. Mais de 3000 pessoas foram presas durante os protestos. A última atitude repressiva do governo foi aprovar um projeto de lei que proíbe manifestações sem autorização, à lei 78. 


O jornal Luta de classes entrevistou o estudante da Concordia University, Brian Lapuz. Ele tem 21 anos e está no segundo ano do curso de jornalismo. Lapuz é militante da seção canadense da Corrente Marxista Internacional e participa da organização Socialist Fightback Student Association, em seu campus. 

Estudante de Jornalismo Brian lapuz



Os protestos começaram de que maneira? Poderia falar um pouco sobre como iniciaram? 

As taxas universitárias de Quebec permaneceram congeladas durante muitas décadas. Essa foi uma vitória dos movimentos passados. Em 2007, o governo decidiu aumentar as taxas de matrícula para 500 dólares até 2012. Houve uma greve, mas foi breve, não ganhou impulso porque as organizações estudantis não estavam unidas. Então, em 2010, o governo provincial falou sobre o aumento das taxas novamente. Poucos protestos foram realizados. Em março de 2011, o governo anunciou que o aumento seria de R $ 1625 até 2017. Organizações estudantis em massa prometeram um ano de mobilizações. Rumores de uma greve geral ilimitada para o inverno já estavam circulando para os próximos meses.

As manifestações foram espontâneas? Existe algum sindicato de estudante ou organização que impulsionou a luta? 

Se as três associações de estudantes (ASSE, FEUQ, FECQ) não estivessem unidas reivindicando um congelamento da taxa de matrícula, este movimento não teria sido tão forte. Os alunos são organizados em associações locais, mas são as coalizões que estabelecem as datas para manifestações de massa.

A educação no Canadá é pública ou privada? 

No Canadá, as universidades são principalmente públicas. Na província de Quebec, todas as universidades são públicas.
Como em outros países o desemprego vem atingindo os jovens no Canadá? 

Agora, a taxa de desemprego para os jovens entre 15 e 24 anos é próxima de 15%. Este número parece muito melhor do que em outros países da OECD, mas eu não tenho quaisquer dados sobre que tipos de trabalho são. Da minha experiência, a maioria dos jovens tem empregos de baixo salário, com poucas horas ou irregular. Muitos já têm dívida. Se eles vão para a universidade, essa dívida já está alarmante.

Quais dificuldades os estudantes enfrentam para acessar a escola pública? 

Em Quebec, temos as taxas mais baixas de matrícula do Canadá. Isso significa que temos mais alunos no ensino superior. Mais bolsas também estão sendo dadas para os alunos de camadas mais pobres. No entanto, muitos dos jovens pobres não terminam o ensino médio ou não tem qualidades para prosseguir o ensino superior. Muitos jovens de "classe média" têm pais que "tem dinheiro suficiente", segundo o governo, e não recebem quaisquer subsídios. A verdade é que muitos dos jovens têm pais com um monte de dívidas e não podem ajudar os filhos financeiramente. Isto é particularmente difícil para as pessoas que crescem em áreas rurais, porque eles devem se mudar para as cidades e pagar residência na escola ou um apartamento.

Qual é o valor das mensalidades e o que o governo está propondo? Alguns periódicos falam em um aumento de 75%, isso é real?

O aumento atual começou com 75% de aumento em 5 anos, o que significa 325 dólares a cada ano. Em 2017, este será um aumento de US $ 1625. Os números mudaram um pouco, mas não acho que muitos de nós sabemos os detalhes, porque a mudança foi muito pequena. Em 2006, as taxas de matrícula eram 1668 dólares por ano. Em 2011, foi de US $ 2168. Em 2017, deve fechar a $ 3793 por ano.

Além das altas Taxas de matrícula os estudantes têm outros gastos? Quais seriam? 

Além da taxa universitária, os estudantes também devem pagar "taxas" institucionais que dependem da universidade. Pode ser entre R $ 100 a $ 1000 por ano. Os estudantes também devem pagar pelos livros. Dependendo do seu programa, pode ser de US $ 50 a $ 600 por ano. Há também o aluguel é em média de US $ 300 a $ 600 por mês. O transporte público é de R $ 45 por mês para os alunos menores de 25 anos. Há também alimentos, roupas, atividades sociais, etc

O movimento está se organizando há bastante tempo? Qual é sua perspectiva? 

Agora está devagar porque é verão. Para os estudantes em greve, o semestre foi suspenso até meados de agosto. Os restantes dos estudantes viajaram de volta para casa ou estão trabalhando. Assembleias gerais cessaram até o segundo semestre. Minha perspectiva é que, a menos que os trabalhadores se unam a nós, a luta perderá força. Já vimos sinais disso.

Os estudantes têm conseguido apoio de outros setores, como os trabalhadores? 

Os trabalhadores têm mostrado um grande apoio. Há sempre contingentes de diferentes sindicatos de trabalhadores em manifestações. Muitos artistas de Quebec também manifestaram seu apoio inclusive usando o símbolo da luta (quadrado vermelho) em eventos públicos ou na televisão.

A lei 78, que limita as liberdades de manifestação foi aprovada durante os protestos? Qual argumento que os políticos a utilizaram? Poderia falar sobre isso? 

O movimento não respeita a Lei 78. Depois que a lei foi aprovada, as pessoas começaram a demonstrar batendo caçarolas em seus bairros. O que foi interessante é que muitas dessas pessoas não eram estudantes, eram mais velhos, pessoas da classe trabalhadora, idosos ou crianças. Também aconteceu uma grande manifestação em 22 de maio contra esta lei com cerca de 300.000 pessoas.

Quantos estudantes foram presos? A repressão tem enfraquecido o movimento?

Mais de 3000 pessoas foram presas. A grande maioria são estudantes. As maiorias das pessoas que são presas pagam uma multa de US $ 350 (ou menos) e são liberadas. É difícil dizer se isso está enfraquecendo o movimento, mas eu sou obrigado a dizer que não enfraqueceu o movimento. 

Mais de 3000 pessoas foram presas durante os atos
O atual governo é de que partido? Como é sua política em relação à classe trabalhadora e a juventude? 

O partido político atual é o Partido Liberal do Québec. Eles são um partido de direita e estão no poder há quase 10 anos. A classe trabalhadora e a juventude não tem suporte para este governo por causa da severidade do governo e redução de impostos para os ricos, os bancos e as corporações. Há também muitas denúncias de corrupção. Além disso, as pessoas não gostam de seu projeto de mineração chamado "Plan Nord" ou Plano Norte, que praticamente dá as multinacionais a liberdade os recursos naturais das províncias.
Existe algum sindicato estudantil que unifica os estudantes na luta por suas reivindicações? 

A CLASSE (Coalition large de l’association pour une solidarité syndicale étudiante ou Ampla coalizão da associação para um estudante de Solidariedade da União) representa 100.000 estudantes. Eles são os mais radicais. FEUQ / FECQ representam 180.000 estudantes, mas eles não são radicais.

Existem partidos de esquerda? Qual relação deles com o atual movimento? 

Há apenas um partido de massas de esquerda no Canadá, que é o Partido Neo-Democrata (NDP). Eles decidiram permanecer neutro durante este tempo todo. Mas, em Quebec, existe uma parte chamada Québec solidaire (QS). Eles defendem a educação gratuita e têm apoiado os alunos desde o início.

Como é o trabalho de nossa seção canadense? Onde intervimos? 

No Canadá, são principalmente estudantes e jovens, por isso, nosso trabalho é no campus. Na província de Quebec, os nossos camaradas estão nas linhas de frente do conflito e passam por muitos riscos, por conta da repressão. Nós admitimos que estamos ligados ao movimento. Nos últimos dois meses, demos alguns passos para trás para educar os nossos novos militantes. Nós também percebemos que as pessoas estão mais receptivas às nossas ideias. É muito fácil mostrar o nosso papel em manifestações de massa. Fora de Quebec, os nossos camaradas foram vistos com o trabalho de solidariedade e de ter forçado a CFS (Federação dos Estudantes do Canadá) a fazer algo. As pessoas estão falando de uma greve estudantil no resto do Canadá. 

Estudantes nas ruas do Canadá

Texto: João Diego
Tradução:Dayane de Oliveira Pacheco

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Clint Eastwood - Gorillaz

Um amigo me fez lembrar dessa música essa semana, quanto tempo que eu não ouvia Gorillaz...


sexta-feira, 18 de maio de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nova Ordem - Projota, Rashid e Emicida (2011)

Viver a páscoa hoje

"A fé esvazia o sentido da ressurreição de Jesus quando não se pergunta pelas razões de sua morte. Ele não queria morrer, suplicou a Deus que afastasse dele aquele cálice de sangue."
(Frei Betto)


      Hélio Pellegrino, psicanalista e escritor, dizia que não há nada mais radical do que crer na ressurreição da carne, conforme professa o dogma cristão. E registrou isso no texto “Aposta pascal”.


      O que significa acreditar, hoje, na ressurreição da carne? Carne significa, para a doutrina cristã, a consistência material do Universo. Segundo o apóstolo Paulo, não apenas os seres humanos ressuscitarão com Jesus, mas toda a Criação (Carta aos Romanos 8).


      Por mais fantasiosa que esta crença ressoe aos ouvidos de quem não tem fé, o fato é que ela é a única possibilidade de derrotar o nosso inimigo inelutável: a morte. Essa dama da foice que, à luz da razão, diz a última palavra, ainda que a ciência se empenhe em prolongar a nossa existência (haja cirurgias e malhação!), é subjugada pela esperança de que há luz no fim do túnel.


      A Páscoa, na sua origem hebraica, é um fato político: sob o reinado do faraó Ramsés II, em 1250 a.C., liderados por Moisés, os hebreus se libertaram da escravidão no Egito. Basta isso para que, hoje, ela seja comemorada como incentivo a combater toda forma de opressão, preconceito e discriminação.


      Nascemos do mesmo modo, ao morrer teremos todos o mesmo destino e, no entanto, as desigualdades imperam em nosso modo de viver. Diferenças de condições sociais e culturais incutem em nós óticas deturpadas e, em geral, criminosas, em relação ao outro. É o caso do homem que se julga superior à mulher, do branco que discrimina o negro, do heterossexual com preconceito ao homo, do rico indiferente ao pobre.


      Exemplos atuais são a criminalização dos imigrantes pelos países ricos, a suspeita de que todo muçulmano é um terrorista em potencial, e os discursos eleitorais dos pré-candidatos republicanos às eleições presidenciais nos EUA.


      A Páscoa, para os cristãos, além do ato político encabeçado por Moisés, é sobretudo a proclamação de que Jesus, assassinado em Jerusalém por volta do ano 30 de nossa era, condenado por dois poderes políticos, venceu a morte e manifestou a sua natureza também divina.


      Uma fé que comporta a crença na divindade de um pregador tido como subversivo pelas autoridades de seu tempo, deve ao menos se perguntar: por que o assassinaram? Não era um homem tão bom? Não fez apenas o bem?


      A fé esvazia o sentido da ressurreição de Jesus quando não se pergunta pelas razões de sua morte. Ele não queria morrer, suplicou a Deus, a quem tratava com a intimidade relacional de filho para pai, que afastasse dele aquele cálice de sangue. Teve medo. Refugiou-se numa plantação de oliveiras. Preso, não negou o que fizera e pregara, e pagou com a vida a sua coerência.


      Assassinaram Jesus porque ele queria o óbvio. Este óbvio é tão óbvio que, ainda hoje, muitos fingem não enxergá-lo: vida em plenitude para todos (João 10, 10). Ora, não é preciso saber economia, basta a elementar aritmética, para se dar conta de que há suficiente riqueza no mundo para assegurar vida digna a seus 7 bilhões de habitantes.


      A renda per capita mundial é, hoje, de US$ 9.390. Porém, basta olhar em volta para ver nossos semelhantes jogados nas calçadas, catando lixo para se alimentar, morando em favelas, submetidos ao trabalho escravo. Basta ligar a TV para se deparar com o rosto cadavérico dos africanos famintos. Basta abrir o jornal para ler que 2∕3 da humanidade ainda vivem abaixo da linha da pobreza. E 20% da população mundial concentra em suas mãos 84% da riqueza global.


      Páscoa significa passagem, travessia. Domingo, nós cristãos iremos à igreja celebrar esta que é a mais importante festa litúrgica. E o que muda em nossas vidas? Vamos sair do nosso comodismo para ajudar a quebrar as amarras da opressão? Vamos deslocar a nossa ótica do lugar do opressor para encarar a realidade pelos olhos do oprimido, como sugeria Paulo Freire?


      É fácil ter religião e professar a fé em Jesus. O difícil é ter espiritualidade e a fé de Jesus.
                                              Feliz Pascoa!
    Autor: Frei Betto

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012