quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Alfred Hitchcock: O Senhor do Suspense


Alfred Hitchcock, se estivesse vivo, completaria 114 anos ontem, neste mês de agosto (13). Por esse motivo, resolvi escrever, humildemente, sobre "o senhor do suspense", um dos maiores diretores da história do cinema. 

Foi um dos diretores (se não o único) a ser reconhecido pelo público não como ator, mas, como diretor, um caso à parte, falando-se de cinema. Além disso, seu grande mérito foi a genial criação de um gênero: o suspense.

Fugia da mesmice, e fazia duras criticas a televisão. Segundo ele: "Televisão é como a torradeira americana. Aperta-se o botão e aparece sempre a mesma coisa." Motivos estes, que o tornou único, considerava originalidade uma exigência.

Inovador e extremamente original. Qualquer leigo do cinema, conhecendo pouco de Hitchcock, reconhece, em minutos de exibição, uma obra do diretor. 

Enfim, apresentamos:

Vida e obra: Alfred Hitchcock (1899-1980)

O senhor do Suspense



Britânico, engenheiro, um dos três filhos de Emma e William Hitchcock. Alfred passou uma infância de traumas. Como o próprio dizia: "Se você tiver sido educado com os jesuítas como eu fui, esses elementos seriam importantes. Eu me sentia aterrorizado pela polícia, pelos jesuítas, pela punição, por um monte de coisas. Estas são as raízes do meu trabalho."

O cinema, na época da faculdade, era um hobby e um sonho. Começou a trabalhar na área nos estúdios Famous, em Londres, como desenhista de cartelas de legendas de filmes mudos. Nessa época conheceu Alma Leville, sua única esposa e companheira na vida e no trabalho, acompanhando e ajudando em todas as direções de Hitchcock. Em 1923 passou a ser co-diretor e roteirista, até que estreou como diretor, com The Lodger, 1927 (O Inquilino, em português), que conta a história de Jack, o Estripador. 

Exigente ao extremo, Hitchcock não admitia que nada saísse do roteiro, tudo deveria ser como ele queria. Atitude que não agradava muito os atores com quem trabalhava, pois não havia espaços para improvisos e criação. O que não incomodava Hitchcock, muito pelo contrário. Como ele mesmo afirmava: "Atores são gado."

Kim Novak e James Stewart, em Vertigo, 1958
Para Alfred, o fracasso dos filmes era equivalente a bilheteria. Se a bilheteria do filme ia mal, ele considerava o filme um fracasso, independente das críticas. Um exemplo é o filme Vertigo (1958), um dos que ele considerava "péssimo", por não ter sido bem aceito pelo público.

Brincava com os expectadores, com suas aparições surpresa. Era mais uma das façanhas do diretor. Sua aparição era de praxe, sempre como figurante, com os mais diversos disfarces. Já chegou a se vestir até de mulher. O objetivo era intrigar o público, que o procuravam nos decorrer do filme.


Um dos seus filmes mais famosos foi Psycho, 1960 (Psicose),adaptação do livro de Robert Bloch. Hitchcock fez questão de comprar todas as cópias do livro, em torno de 11 mil dólares, para o final não ser revelado. O filme é considerado uma das maiores obras do terror de todos os tempos. Foi gravada em preto e branco, por opção, pois considerava as cenas muito "sanguinárias" para a época.

De um lado, aclamado pelo público, de outro, desvalorizado pela Academia. Demonstrava sempre que podia a sua indignação por nunca ter ganho um Oscar, (assim como Kubrick), apesar de ter sido indicado seis vezes.

Morreu em 1980, de insuficiência renal, deixando seu legado, sempre lembrado na história do cinema.

Não há como negar que Alfred Hitchcock foi um gênio, um dos maiores diretores de todos os tempos. O senhor do suspense, da inovação, do MacGuffin¹, das aparições as escondidas nos filmes. Intrigante, espetacular, único, Sir Alfred Joseph Hitchcock.

¹MacGuffin é um conceito original nos filmes de Hitchcock, um termo usado pelo cineasta para inserir um objeto que não têm a menor importância para quem assiste ao filme, mas pode ser imprescindível para a personagem da trama.   O MacGuffin de Psycho, por exemplo, é o dinheiro que a personagem de Janet Leigh toma para si. É importante para ela, mas não faz a menor diferença na história, que segue focada no mistério do Motel Bates. 


BÔNUS: Filmografia

Ano
Título
1976
1972
1969
1966
1964
1963
1960
1959
1958
1957
1956
1955
1954
1954
1951
1950
1949
1948
1946
1945
1943
1943
1942
1941
1941
1940
1940
1938
1936
1935
1934
1932
1929
1927
1925
 
Dayane de Oliveira Pacheco

Fontes: 

Texto: Coleção Cinemática, Revista Abril
Filmografia: Adoro Cinema

terça-feira, 18 de junho de 2013

O prenúncio de uma nova situação

100 mil pessoas em passeata no Rio de Janeiro
Em São Paulo, aproximadamente 15 mil jovens e trabalhadores manifestaram-se contra o reajuste do preço das passagens. Em Florianópolis, os motoristas e cobradores entraram em greve. Em Recife, os metroviários ameaçam greve. Para o dia 20 de junho, estão convocadas manifestações nos pais inteiro contra o reajuste dos preços de passagens. Em Mato Grosso do Sul, em uma ocupação de terras, um índio terena foi assassinado pelas tropas federais. Em São Paulo um promotor pede que a PM atire nos manifestantes. A temperatura está subindo na luta de classes e só não vê os que vão passear em Paris e esquecem o sofrimento do povo.
Outro fato que exige uma reflexão foi a depredação da faixada da sede nacional do PT, próxima à Praça da Sé. Mesmo que tenha sido um pequeno grupo (funcionários do PT disseram que cerca de 200 manifestantes ao fugir da repressão passaram pela rua do Diretório Nacional do PT, e alguns poucos dentre estes, pararam em frente ao PT e começaram a atacá-lo), isso é significativo. Se a direção e os governos do PT aplicassem uma política em defesa dos interesses dos trabalhadores, será que passaria pela cabeça de algum manifestante depredar sua sede nacional?
Uma nova situação
A indignação está aumentando e isto tem relação direta com a situação econômica. A crise está chegando e as medidas tomadas pelo governo - desoneração da folha, investimentos em grupos privados, MP de entrega dos portos, privatizações (“concessões”) generalizadas, previsão de mais concessões e leilões de petróleo no próximo semestre – tudo isso não resolve nada e só acelera a chegada da crise. A bolsa cai, o dólar sobe e, mais importante que tudo isso, os alimentos sobem de preço. Sim, a inflação oficial está por volta de 6%, mas qualquer um que vá ao supermercado sabe que o preço da comida subiu 20%, 30% ou até dobrou, conforme o item. E isto é que conta no bolso do trabalhador. 
Os Ministros podem se desdobrar em desculpas, Dilma pode programar uma “agenda positiva”, mas a verdade é que aquilo que está doendo no bolso do trabalhador só pode ser enfrentado com medidas duras de enfrentamento ao patronato e ao imperialismo, e este governo, com o PT entranhado nas alianças com a burguesia, não tem condições de fazer!
Para a maioria dos dirigentes do PT a ordem é defender o “nosso campo”, “nossas alianças” contra o PSDB, que é a “reação”. Entretanto, na hora de anunciar o aumento das tarifas em São Paulo, o Prefeito Haddad, do PT, juntou-se a Alckmin do PSDB. Na hora de criticar os manifestantes e defender a PM, Haddad novamente encontra-se junto com Alckmin.
Depois, quando a grande imprensa comemora a queda de Dilma nas pesquisas, os dirigentes do PT não conseguem explicar nada e apenas reclamam do ‘partido da imprensa’.
O mundo em ebulição
Dilma depois que editou a MP que reduz impostos sobre transportes municipais se calou sobre os aumentos generalizados ocorridos no país. Sim, eles não têm nada a dizer por que se recusam a romper com a burguesia, com os grandes empresários e querem “governar com normalidade”. O problema é que o mundo inteiro está deixando de ser “normal” e a velha luta de classes ressurge pra valer. A Suécia arde durante semanas na revolta de jovens e imigrantes que queimam restaurantes, escolas e bancos e deixam escrito: “local que nunca vou poder ir”. Sim, a diferença social conduz à revolta e isto vale para a Suécia, Turquia e Brasil. 
É apenas o inicio de um vendaval
A Folha de São Paulo retratou o sofrimento e o espanto de quem ia de carro e assistia assustado a guerra dos policiais armados contra jovens desarmados, atacando-os com bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e balas de borracha, nas ruas de São Paulo. Mais assustados ainda estão os trabalhadores e jovens que verificam que o salário que recebem não é suficiente para pagar aluguel, o transporte e a comida no final do mês. Ficam assustados e estão cansados de irem e virem do trabalho em ônibus e metrôs apinhados até as tampas, e só não caem porque não tem lugar pra cair, de tão cheio que vão os vagões e ônibus.  Estão cansados e assustados por morarem nas longínquas periferias aterrorizadas pela polícia e pela bandidagem. Para além do cansaço, começam a buscar saídas, lutam e se revoltam! Mas é apenas o início! Ventos mais fortes soprarão.
O caminho é a luta
No meio de tudo isso, os trabalhadores abrem o seu caminho: greve em Florianópolis, com a justiça tendo decretado que na greve “100% dos ônibus tem que rodar”, medida que foi desprezada com justeza pela categoria que já recebeu o apoio de outros sindicatos e movimentos populares. Em Recife os metroviários ameaçam parar.
A velha luta de classes anuncia um novo tempo
As manifestações ocorridas em Goiânia, Porto Alegre, Rio, São Paulo, e outras cidades e capitais, contra os reajustes das tarifas dos ônibus e metrôs, são o apito e mostram que o trem está chegando. A juventude em São Paulo, inclusive petistas, tomou o caminho correto e está nas manifestações contra os reajustes das passagens realizados por Alckmin e Haddad.
Este primeiro movimento majoritariamente de jovens é a mostra de que a coisas no interior do PT estão se descongelando, demonstra que os trabalhadores e a juventude irão exigir de seus dirigentes, da UNE, da CUT, do PT, da CMP, muito mais que simples declarações ou “agendas positivas” que nada resolvem. Há que romper com as alianças com a burguesia e seus partidos e atender as reivindicações.
A Esquerda Marxista está na luta ao lado dos trabalhadores e da juventude. Uma nova situação está se abrindo! A panela de pressão começa a ferver e no próximo período, participando das lutas, estaremos dialogando com os filiados do PT para pedir apoio militante à tese Virar à Esquerda Reatar com o Socialismo.


Nota:

Estamos vivendo uma nova conjuntura, um novo momento na história do país. É hora de nos unirmos, contra o sistema que nos oprime, e reatar com o socialismo!

Vamos as ruas, trabalhadores e estudantes, mostrar a nossa indignação e lutar pelos nossos direitos, sem violência, contra a violência e contra criminalização dos movimentos sociais. Pela liberdade de expressão e manifestação!

"Serviços públicos de qualidade é direito, lutar por eles não é crime!"

Dayane de Oliveira

quarta-feira, 1 de maio de 2013

1° de maio: quando os trabalhadores perderem a paciência



"O operário fez tudo; e o operário pode destruir tudo, porque pode fazer tudo de novo."

Em homenagem ao 1° de maio, que diferente de outros feriados, não é um dia de descanso, mas de luta, voltando ao objetivo da sua criação. 

Logo, em homenagem ao dia do trabalhador, aquele que constrói tudo no mundo, e que hoje, infelizmente se vê preso e dependente da minoria e do capital. A classe que pode extinguir as classes, que pode fazer o que quiser com o mundo. Somos a maioria companheiros, somos a força e o alicerce do capital, e independente seremos, se formos a luta contra todas as formas de exploração. 

Trabalhadores de todo o mundo, percam a paciência, e uni-vos!

Quando os trabalhadores perderem a paciência

As pessoas comerão três vezes ao dia 
E passearão de mãos dadas ao entardecer 
A vida será livre e não a concorrência 
Quando os trabalhadores perderem a paciência 

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos 
O trabalho deixará de ser um meio de vida 
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência 
Quando os trabalhadores perderem a paciência 

O mundo não terá fronteiras 
Nem estados, nem militares para proteger estados 
Nem estados para proteger militares prepotências 
Quando os trabalhadores perderem a paciência 

A pele será carícia e o corpo delícia 
E os namorados farão amor não mercantil 
Enquanto é a fome que vai virar indecência 
Quando os trabalhadores perderem a paciência 

Quando os trabalhadores perderem a paciência 
Não terá governo nem direito sem justiça 
Nem juizes, nem doutores em sapiência 
Nem padres, nem excelências 

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca 
Sem que o humano se oculte na aparência 
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência 
Quando os trabalhadores perderem a paciência 

Quando os trabalhadores perderem a paciência 
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência 
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá: 
"declaro vaga a presidência"!

Mauro Iasi

Meus parabéns a todos(as) os trabalhadores(as) do mundo!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sobre o amor da minha vida: Música



A arte (todas elas) me encanta, por ter o poder de materializar os sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Na minha (pequena) vida, sempre houve uma arte em especial que me acompanhou: a música.

Antes até de saber falar, quando dormia escutando-a, ou antes, de saber escrever, quando aprendia minhas primeiras notas, no piano.  E assim passei minha infância, sem entender quão grandiosa essa arte seria pra mim.

Minhas primeiras notas no violão foram insonoras e doloridas. Continuei por insistência, mas repugnava o instrumento a cada nota e a cada música.

Mal sabia eu que esse seria o amor da minha vida, materializado em um violão. Aprende-lo fez compreender-me melhor, expressar em música o que com palavras, para mim, era impossível. Ter com quem “conversar”, e dali tirar as mais belas lições.

A composição foi a parte mais difícil, mas é o que mais me serve como “antidepressivo”. Traduzir todos os sentimentos pra uma melodia, uma língua universal que emociona os ouvidos mais sensíveis e apurados.

É o que pode ser chamado perfeito, ou melhor, perfeita, até na feminilidade do nome.

Me acalma como nenhuma outra arte, me liberta, me ensina... Sou completamente apaixonada por ela, e é nela que deposito toda a minha confiança, a razão do meu viver, pois, muita coisa dessa vida passa, mas ela irá me acompanhar em todos os presságios da minha.

Eu te amo!

Dayane de Oliveira Pacheco

domingo, 7 de abril de 2013

Um jovem e seu desejo de conhecer a cidade



*Relato de Felipe Araujo, sobre o direito de ir e vir, de conhecer a cidade onde vive (RJ) e dos limites do transporte público.

"Eu moro no Rio de Janeiro, e pra quem não sabe, aqui nós temos uma coisa chamada Passe Livre. O Passe Livre é um direito conquistados pelos estudantes, onde podemos botar em pratica o Artigo 5 da Constituição, que resumimos como "o direito de ir e vir". Ou seja, os estudantes não pagam passagem. No Rio esse direito é valido apenas para alunos da rede publica de ensino (Ensino Fundamental e Médio).

Agora vocês imaginem: um jovem pobre, que mora numa região com poucos serviços culturais, mas que tem o direito de ir pro shopping, pra praia, pra casa de outro amigo, visitar um tia, etc. Esse jovem tem na mão um grande instrumento de desenvolvimento pessoal, pois pode se apropriar de vários tipos de dispositivos de sua cidade.



E era exatamente isso que eu fazia. Percorria toda a cidade. De Copacabana à Paciência. De Nilópolis ao Méier. Até meus 17 anos de idade, circulei muito pela minha cidade. Conheci muita gente, muitas praias, muitas bibliotecas, cinemas. Conhecer outros lugares ampliava meu modo de ver o mundo, percebi por exemplo, que em uma única Rua de Botafogo, a Voluntários da Pátria (Bairro nobre de minha cidade) tinha mais cinemas que em toda Zona Oeste, região onde ficava a Favela onde eu moro.

Mas, acontece que eu terminei o Ensino Médio. E com ele muita coisa virou mero passado, por exemplo: minhas amizades foram ficando mais distantes, nossas diversões: Jogar RPG no Bosque da praça 1° de Maio, sair da aula e ir pro Shopping de Madureira se encontrar com a galera que curtia Rock, ir pro Cinema que tinha dentro do Shopping Carioca (que dia de Quarta-feira custava 3 reais a meia-entrada), pegar um ônibus que não em servia, só porque alguma menina linda havia entrado nele... Essas coisas são de uma época que não existem mais.

Ficou também no passado andar de ônibus de graça. Essa foi uma das coisas mais difíceis de eu entender. Pensem num jovem que passou 17 anos de sua vida usando sua camisa da escola como "vale transporte", ter que passar a desembolsar dinheiro para se locomover...

Foi perrengue. Comecei a sair menos, ver menos meus amigos, ir menos ao cinema, ir menos a praia.

Percebi que precisa de um emprego. Mas até pra arrumar emprego eu precisava de dinheiro de passagem, e nem sempre eu tinha. Foi uma fase difícil.

Daí comecei a trabalhar, e percebi que cerca de 30 % do meu salário era gasto com passagem. Aquilo me indignava.

Minha mente de jovem pensava: "Ônibus devia ser de graça, afinal tá na Constituição."
Mas ninguém nunca me ouvia, dizia que era impossível. E toda vez que a passagem aumentava via os adultos reclamando.

Hoje já me acostumei a pagar pelo transporte. Mas já fico imaginando o quanto que terei de gastar pra meu filho ter a mesma oportunidade que eu de se apropriar da cada local da cidade."

Felipe Araujo - Artista de Rua, Estudante de Filosofia da UFRJ e jovem que considera importante se apropriar de cada território diferente.

Pelo Passe livre e estatização dos meios de transporte público coletivos!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Pós 'Brilho eterno de uma mente sem lembranças'


"Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos."

(Friedrich Nietzsche)




Se eu pudesse apagar alguém da minha memória, eu apagaria? E se eu pudesse mudar a minha história, eu mudaria?

E se... O ‘se’ é um terrível tormento pra mim, porque o ‘se’ poderia mudar todos os momentos da minha vida, qualquer simples mudança, virar a esquerda ao invés da direita, mudaria toda a rota do meu ser. Cada minucioso passo, faz de mim o que eu sou hoje, me constrói...

O acaso é tão confuso quanto a morte. É um mistério que está sempre sendo desvendado, mas nunca por completo. Nunca sabemos aonde o acaso pode nos levar, e por mais que planejemos toda a nossa vida, o acaso sempre vem, e faz dela imprevisível, irremediável, como a morte.

Eu fecho os olhos, e lembro, de tudo o que eu vivi, aonde o acaso me levou, e eu não mudaria nada, sequer uma vírgula. Eu sou cada sofrimento, cada lágrima, cada culpa, cada erro, e apaga-los não me torna imune a outros erros, eles estão sempre ali, perseguindo cada um...

E se eu tivesse asas, se eu fosse um homem, e se eu pudesse ler os pensamentos...
Atordoa-me as coisas da imaginação... E o ‘se’ faz da imaginação, infelizmente, limitada, não podemos torná-las reais.

E se os sonhos se tornassem reais? Eu seria mais feliz? E se eu me perdesse no esquecimento?

E o destino? Não acredito, ou melhor, somos donos do nosso destino, não nascemos com a vida pré-destinada, podemos mudar o destino quando quisermos.

Sem culpa, sem medo, sem dor, todos nós queríamos apagar esses sentimentos, mas é isso que nos torna humanos, confusões, mas que nos ensinam e nos fazem.
E se eu me matasse? Eu perderia todo o meu fracasso, as minhas lembranças e me perderia no esquecimento, e todo esse eu se resumiria a nada.

Uma mente sem lembranças é um recomeço de uma vida, mas morte de outra.

Dayane de Oliveira Pacheco

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Tiara e Poderes do Papa: o olhar de um sociólogo da religião


A renúncia do Papa Bento XVI é, sem dúvidas, uma das notícias mais comentadas no mundo. Resolvi, então, postar um texto sobre o assunto, que ajudará a conhecer melhor a vida e a função de um papa. Posto, principalmente pela opinião sobre os poderes temporais, por condizerem muito com a minha opinião. Espero que gostem, e aprendam com o texto! Boa Leitura! 
Dayane de Oliveira Pacheco

Tiara e Poderes do Papa: o olhar de um sociólogo da religião, por Pedro A. Ribeiro de Oliveira

A inesperada renúncia do Papa Bento XVI abre o processo que elegerá seu sucessor no pontificado. Durante séculos constou da cerimônia de inauguração do pontificado a tiara: ornamento de cabeça com três coroas superpostas. De origem medieval, a tiara simboliza a conjunção de três poderes. Ao ser coroado, o Papa recebia a tiara como símbolo de tornar-se então “Pai de Príncipes e Reis, Pastor de toda a Terra e Vigário de Jesus Cristo”. O último papa a colocá-la na cabeça foi Paulo VI, que em 1963 a depositou aos pés do altar para não mais ser usada. Desapareceu assim o antigo símbolo do poder temporal dos papas.
Papa Pio XII usando a tiara

      Acabou-se o símbolo, com certeza, mas não os poderes temporais. Embora o papa não consagre chefes de Estado, não comande exércitos nem dirija alguma corporação transnacional, ele continua a exercer poderes que não são insignificantes. Sem alarde e sempre alegando servir a Igreja, os últimos papas conservaram os principais poderes que a tradição medieval lhe atribuiu.

Em primeiro lugar, o papa dispõe de uma importante instituição financeira: o Instituto para as Obras de Religião, que funciona como banco a serviço da Santa Sé. Por gozar do privilégio de extraterritorialidade, essa instituição pode fazer aplicações de capital em diferentes campos da economia sem submeter-se ao controle externo de suas atividades. Isso dá ao papa considerável poder econômico, pois ainda que viessem a faltar as contribuições voluntárias dos fiéis, os rendimentos dessas aplicações financeiras permitiriam manter a Santa Sé em funcionamento por muito tempo.

Outro poder oriundo da tradição medieval é a condição de chefe de Estado. O Vaticano é um território minúsculo, comparado aos antigos Estados Pontifícios, mas dá ao papa o comando sobre o corpo diplomático da Santa Sé, que é tido como um dos mais competentes e eficientes do mundo. Formados pela Pontifícia Academia Eclesiástica, os núncios apostólicos e seus auxiliares representam a Santa Sé em quase todos os Países do mundo e junto aos principais organismos internacionais. Sua função não é apenas diplomática mas também eclesiástica, pois as nunciaturas são o veículo normal das informações confidenciais entre a Secretaria de Estado e os bispos de um país, e por elas passam as denúncias de irregularidades nas igrejas locais. Independentemente da quantidade de católicos residentes no país, a representação diplomática da Santa Sé tem status de embaixada e em muitos países o núncio exerce a função de decano do corpo diplomático.

      Outro poder de grande importância é a nomeação de bispos. Também herança medieval, quando havia grande interferência de reis e príncipes na escolha de bispos para dioceses situadas em áreas sob sua jurisdição. Para proteger aquelas dioceses contra nomeações que atendessem antes aos interesses dos governantes do que às necessidades pastorais da igreja local, o papa reservou-se o direito de eleição dos bispos. Hoje em dia a laicidade do Estado impede a interferência do poder político na escolha de bispos, e a situação inverteu-se: em vez de salvaguardar o direito de a igreja local escolher seu bispo, a escolha do candidato pelo papa volta-se contra ele. As nomeações episcopais são regidas pela lógica da cúria romana e não pelas necessidades da igreja local. Isso não significa, é claro, que a cúria romana desconheça as igrejas locais, mas seu conhecimento depende da eficiência dos canais de informação disponíveis. Além disso, como todo ocupante de cargo de direção presta contas primeiramente a quem o elegeu, os bispos se sentem obrigados a seguir a orientação vinda de Roma mesmo quando ela não condiz com a realidade de sua igreja particular. E isso, sem dúvida, só faz aumentar a centralização do poder romano.

      Apontados esses três poderes papais, como três coroas de uma tiara, cabe refletir sobre o significado da renúncia dos últimos quatro papas ao uso da tiara. Renunciaram apenas a um ornamento bizarro[1] ou a certos poderes que hoje mais impedem do que favorecem a missão evangelizadora da Igreja?

      Os três poderes acima enunciados – poder econômico, poder de Estado e poder eclesiástico – favorecem uma forma de organização centralizada e piramidal, na qual a cúpula tem o controle de todas as instâncias intermediárias até as bases. Esse modelo organizativo que moldou também a burocracia estatal, o exército, e as empresas privadas desde o século XIX vem sendo substituído por outro modelo, mais flexível e ágil: a organização em rede, que tornou caduca a organização piramidal, hoje incapaz de assegurar uma governança eficiente.

      Não é, porém, por ter saído de moda que o modelo centralizado e piramidal adotado pela Igreja católica romana deve ser criticado, pois há coisas fora de moda que continuam boas – como o casamento monogâmico, por exemplo. O poder centralizado e piramidal merece ser criticado é porque dificulta o exercício da autoridade: a capacidade de mobilizar pessoas apenas pela força moral de quem as lidera. Aí, sim, reside o fulcro da questão.

Os clássicos da sociologia – E. Durkheim, K. Marx e M. Weber – perceberam que a força histórica e social da religião reside em sua capacidade de moldar – pela convicção, não pela coerção – o comportamento humano e assim formar o “clima moral” de uma sociedade. É na ação molecular, de base (as múltiplas atividades pastorais de comunidades, movimentos e congregações religiosas) que reside a força social da Igreja. Sem essa capilaridade pastoral, os pronunciamentos do papa – e dos bispos, pode-se acrescentar – seriam mera retórica. Se o papa e os bispos querem ter força moral, é hora de renunciar aos poderes temporais. Ai reside um grande desafio ao sucessor de Bento XVI.

      Uma Igreja que anuncia e constrói o Reinado de Deus no mundo atual – afinal esta é sua perene missão, reafirmada no Concílio Ecumênico de 1962-65 – deve renunciar ao poder econômico, à diplomacia e à organização piramidal, para tornar-se uma Igreja capaz de dialogar com o mundo como fazia Jesus: com autoridade moral e testemunho de amor – preferencialmente aos pobres e às pessoas socialmente desprotegidas. Que o próximo papa deixe a tiara no museu do Vaticano e com ela os poderes temporais herdados dos tempos medievais. Será bom para o Papa, para a Igreja católica e para o mundo todo.
Juiz de Fora – MG, 11/ fevereiro. 2013

Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Sociólogo, Professor no Mestrado em Ciências da Religião da PUC-Minas e Consultor de ISER-Assessoria